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domingo, 19 de fevereiro de 2017

A SEDE DO MAL (1958)


A SEDE DO MAL (1958)

A abrir “Touch of Evil” (1958), Orson Welles oferece-nos desde logo uma sequência magnífica que ficará para sempre como referência mítica na história do cinema: durante alguns (longos) minutos (o que nunca antes fora tentado) assiste-se a um plano sequência que se inicia no México e, passada a fronteira que liga dois países, acabará nos EUA. Percebemos que alguém coloca uma bomba relógio num carro estacionado num parque de estacionamento da pequena localidade de Los Robles, vemos um milionário norte-americano sentar-se ao volante, tendo a seu lado a amante, vemos o carro arrancar em direcção à fronteira, cruzando-se com o investigador da luta anti-narcóticos, Miguel Vargas (Charlton Heston) e a sua jovem esposa (Janet Leight), que acabam de viver a sua lua-de-mel no México, e, já depois de ultrapassado o controle, ouve-se o detonar da bomba e vê-se o carro erguer-se no ar envolto em chamas e cair no alcatrão. O atentado concretiza-se em terra americana, por isso é chamado à investigação o experimentado capitão Hank Quinlan (Orson Welles), mas como o engenho fora colocado ainda em solo mexicano, Miguel Vargas interessa-se pelo acontecido e acompanha o inquérito. 
Quinlan, que baseia grande parte do sucesso das suas investigações na intuição e nas indicações que a sua perna aleijada lhe vai apontando, chega rapidamente a um suspeito, Sanchez, um mexicano que se casara secretamente com a filha do milionário e que, por isso mesmo, oferece um bom motivo para perpetrar o assassinato. Como as provas não abundam, e só fala o instinto (e um certo racismo, mal disfarçado, para com os mexicanos), Quintan resolve colocar algumas cargas de dinamite em casa de Sanchez para o incriminar, procedimento que desgosta Vargas, surgindo entre ambos uma disputa que tem a ver com métodos de trabalho e morais contraditórias. Mas Quinlan associa-se à Mafia local, contacta com a família de Grandi, e tenta intimidar Vargas e pôr em causa os seus processos. São duas concepções de justiça que se opõem, sentindo-se o efeito da venalização por comportamentos nada ortodoxos.


Com uma fotografia notável e excelente iluminação de mestre Russell Metty, jogando abertamente com a influência expressionista, sobretudo na forma como descreve os ambientes nocturnos da pobre vila mexicana, na mão de “gangs” de mafiosos, “A Sede do Mal” atenta sobretudo na análise de mais uma das grandes personagens impostas pelo génio de Welles: Quinlan, que vive obcecado pelo assassinato da mulher, estrangulada trinta anos antes, e que deixou pesadas marcas no seu comportamento: “Esse foi o último culpado que me escapou”, afirma Quinlan, que promete luta sem cartel ao submundo do crime, nem que para tanto tenha de forjar provas e criar um estatuto de “justiceiro” por conta própria. O seu código de honra é muito especial, e ajusta-se perfeitamente à aparência física da personagem, criada e interpretada por Orson Welles.
Polícia sem moral, corrupto, não olhando a meios para alcançar os fins em vista, Quinlan associa à repugnância da sua “monstruosa” aparência a falta de ética e de princípios do seu íntimo. Como representante da Lei, Quinlan é um bom exemplo do que esta não deve ser, apesar de (ou agravado por esse facto) ir criando seguidores e admiradores, como o seu amigo e ajudante (e já cúmplice!) Menzies.
As razões psicológicas que poderemos encontrar para explicar a personagem, não nos permitem valorizar positivamente os seus processos, que contêm esse “touch of evil” que tanto fascina Welles ao longo de toda a sua carreira de cineasta.
Inicialmente, o filme parecia destinado a ser mais um “policial” ou “filme negro” de série B, mas a genialidade de estilo de Orson Welles fez desta obra um trabalho absolutamente invulgar e absorvente, quer pela forma como desenha as figuras contra o cenário miserável e decadente do “pueblo”, quer pela maneira brilhante como a narrativa se estabelece, com contínuos “tours de force” de uma realização inventiva e eficaz, que cria um clima malsão e o impõe de forma fulgurante e coerente.


Orson Welles conta como “A Sede do Mal” lhe foi parar às mãos: “No que diz respeito ao tema, impuseram-mo. Não me apresentei no estúdio declarando: "Quero filmar esta história". Eles já a tinham. Quanto à realização, fui encarregado dela por acaso: haviam contactado Charlton Heston para representar o papel principal: "Quem é que está mais neste filme? " perguntou ele. Responderam-lhe: "Talvez pudéssemos ter Orson Welles". Ele julgou que queriam dizer que era como realizador, e comentou logo: "Oh! Representarei não importa em que filme realizado por Orson Welles." Daí, pensaram: "Ah, então mais vale pedir-lhe para fazer o filme!" Transformei o argumento que me tinham dado, reescrevendo certas cenas até ao momento de rodar a manivela e outras durante a rodagem, remodelando a história. Portanto, o meu papel de autor, neste filme, só se exerceu dentro de certos limites impostos pelos elementos do argumento de que dispunha à partida. Por outro lado, como acontece quando queremos fazer um filme que toque um largo público, senti-me forçado a dar à minha realização um estilo que tivesse um valor, um interesse, tanto para os cinéfilos atentos como para os miúdos que vão ao “drive-in”.
Mas a sua realização é definitivamente marcante: os ângulos de filmagem oblíquos, causando estranheza no espectador, a profundidade de campo da grande angular utilizada, criando uma perspectiva “em fuga” para um ponto do horizonte que por vezes conduz ao beco sem saída mais completo (“Não tens futuro. O futuro esgotou-se”, diz Tana a Quinlan), os movimentos de grua, com vistas áreas que planam sobre as figuras, captando-as como insectos ou monstros descomunais, a representação escolhida para impor algumas personagens, tudo serve um estilo determinado, barroco na expressão, simbólico nalguns momentos (“ Era um chui nojento. Era um homem”), de uma clareza desarmante noutras alturas. “Estou farto de andar atrás da verdade. Lidar com patifes, pode fazer ficar-se como eles”, diz Menzies na sequência final, antes de Quinlan tentar lavar na água as mãos sujas de sangue. Mas é tarde demais. “The Touch of Evil” está presente.
O filme não estreou como Orson Welles o havia idealizado. Ele próprio o explicou, numa entrevista aos “Cahiers du Cinema”: Deram-me carta branca durante toda a rodagem; foi na verdade uma magnífica experiência. Depois, assim que a rodagem chegou ao fim, o estúdio fechou e toda a gente foi posta na rua; não sei quantas pessoas exactamente, mas pelo menos quinhentos a seiscentos empregados foram dispensados. Era a grande reorganização, período durante o qual ninguém sabia ao certo o que se passava. O produtor - não fui eu que produzi este filme - o meu produtor, Zugsmith, foi trabalhar para a MGM. É uma história aborrecida, não passa de intrigas. Enfim, de repente não havia mais produtor, e não me autorizaram a acabar a minha montagem, foram incorporadas duas ou três cenas que eu nem tinha escrito nem dirigido, nunca me convidaram a ver o meu filme terminado”.


A SEDE DO MAL
Título original: Touch of Evil

Realização: Orson Welles (EUA, 1957); Argumento e diálogos: Orson Welles, segundo Badge of Evil, romance de Whit Masterson. Fotografia: Russell Metty.  Música: Henry Mancini. Cenários: Russell A. Gausman e John Austin. Guarda-Roupa: Bill Thomas.  Montagem: Virgil W. Vogel e Aaron Stell. Assistentes de encenação: Phil Bowles e Terry Nerson.  Som: Leslie I. Carey e Frank Wilkinson. Direcção artística: Alexander Golitzen e Robert Clatworthy; Produção: Albert Zugsmith, para Universal-International; Intérpretes: Charlton Heston (Mike Vargas), Janet Leigh (Susan Vargas), Orson Welles (Hank Quinlan), Joseph Calleia (Pete Menzies), Akim Tamiroff («Uncle» Joe Grandi), Joanna Morre (Marcia Linnekar), Ray Collins (Adair), Dennis Weaver (guarda nocturno), Valentin de Vargas (Pancho), Mort Mills (Schwartz), Victor Milian (Manolo Sanchez), Lalo Rios (Risto), Michael Sargent ("Pretty Boy"), Marlène Dietrich (Tanya), Zsa Zsa Gabor, Keenan Wynn, Mercedes McCambridge, Joseph Cotten, etc. Rodado nos estúdios da Universal, em Hollywood, e em exteriores em Venice (Califórnia); Duração: 108 minutos; Estreia: Fevereiro de 1958 (EUA); Distribuição internacional: Universal International; Distribuição em Portugal (cópia nova): Atalanta Filmes; Universal (DVD); Classificação: M/ 12 anos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A DAMA DE XANGAI (1948)


A DAMA DE XANGAI (1948)

Depois de “O Mundo a Seus Pés” e “O 4º Mandamento”, que muitos consideram os títulos mais pessoais de Orson Welles, outra das suas obras mais significativas é “A Dama de Xangai”, rodada em 1948 para a Columbia Pictures. Diz a lenda, e as informações do próprio Welles, que este policial, retirado de um romance menor de Sherwood King ("If I Die Before I Wake"), se concretizou porque o cineasta precisava de 25.000 dólares para ajudar a montar um espectáculo musical na Broadway, "A Volta ao Mundo em 80 Dias", e os conseguiu parcialmente. Como o espectáculo não se chegou a estrear, Welles perdeu essa soma e ficou em dívida para com o produtor Harry Cohn, o homem forte da Columbia. Para pagar a dívida, aceitou adaptar esta obra que seria interpretada por Rita Hayworth, vedeta número um da Columbia e, nessa altura, ainda mulher de Orson Welles, apesar de, por esses dias, correr já o processo de divórcio.
História, portanto, complexa a da génese deste filme, mais uma obra maldita no percurso de um cineasta genial, que considera só ter completado três ou quatro filmes - todos os outros acabaram adulterados por produtores que o não compreendiam e não toleravam com bons olhos as suas experiências estilísticas e a morosidade da montagem.
Diga-se, em boa verdade, que não devia ser fácil trabalhar com Welles. Ele próprio o confessa, quando afirma em várias entrevistas suas, que para si uma montagem nunca está terminada. De uma maneira ou de outra, “The Lady from Shanghai” foi mais um filme que se estreou depois de ter sofrido uma montagem imposta pelo produtor, e sobretudo depois de lhe terem colado uma banda sonora “estranha” - que não é a original, portanto - e que exasperava particularmente o realizador, que a considerava música para aventuras de Pluto ou filmes da casa Disney.


Mas vamos ao início da história. Os tumultuosos amores de Welles e Rita Hayworth atravessavam um mau momento, com processo em tribunal e tudo. Mas, a actriz amava ainda Welles e este nunca deixou de se sentir apaixonado por ela. A frase final desta obra dir-se-ia que se adapta por inteiro a este romance mal resolvido. Harry Cohn, o produtor, que durante anos procurou afastar a sua vedeta de estimação das garras desse “intelectual fatídico”, achou nessa altura que seria certamente muito comercial juntar publicamente o casal litigante num policial. E fez tudo para reunir Welles e Rita Hayworth nesta obra. Welles começou por convocar a imprensa e levá-la a assistir a um crime de lesa imagem da diva: perante os fotógrafos, Rita Hayworth aceitou cortar o seu belo cabelo, que surgiria curto e louro em “The Lady from Shanghai”.
Depois, alugou o iate de Errol Flynn, que o pilota por vezes, sem que ele apareça nas imagens, e partiu para os mares do Sul, Acapulco e Sausalito, onde filmou durante várias semanas sem dar novas ao estúdio. Quando chegou a Holywood, com as bobines debaixo do braço, montou o filme e mostrou-o numa ante-estreia para previsão da recepção do público. Os resultados foram catastróficos - ninguém percebera a história, nem o próprio Harry Cohn, que ofereceu um prémio a quem lha contasse direita. Mas Harry Cohn, apesar de tudo, tinha algum respeito por Welles, que lhe pagava na mesma moeda. Welles compreendia o papel dos produtores, mesmo daqueles que não percebiam nada de cinema, como era o declarado caso de Harry Cohn. Já agora, um à parte divertido: conta-se que quando Harry Cohn morreu, o seu enterro foi muito concorrido, o que Billy Wilder explicava, com a ironia que lhe era peculiar: "Acontece, sempre que se dá ao povo aquilo que ele tem vontade de ver..."


Mas no caso de Rita Hayworth, o povo não gostava de a ver transformada e por terra na derradeira sequência. Mulher fatal, sim, mas, mesmo assim, "deusa do amor", mito romântico de uma Hollywood que se afeiçoara à imagem de fábrica de sonhos. Welles, no entanto, filmara a sua amada com verdadeiro amor na objectiva. Basta reter alguns planos admiráveis por onde evolui com a leveza de uma sombra branca e a sensualidade refreada de uma felina pronta a atacar.
A história é realmente um pouco complexa, mas não é nela que se encontra o verdadeiro interesse e significado do filme. Como em quase todos os “filmes negros” a intriga custa a acompanhar.
A Orson Welles, vindo da traumatizante experiência de “It's All True”, obra abortada entre o México e o Brasil, interessavam sobretudo as personagens que se confrontam, o clima que se cria, as inovações técnicas e narrativas que ia introduzindo no cinema. Esta história de tubarões que se entredevoram quando o cheiro do sangue encharca as águas do oceano era uma história que tinha muito a ver consigo. Ele próprio lhe introduz anotações obviamente pessoais, como a referência a Fortaleza, e a própria metáfora dos tubarões.
Resumindo e concluindo, que quando se começa a falar de Orson Welles a tendência é para não parar mais, “A Dama de Xangai" acaba por ser um dos mais sentidos e sinceros filmes de Welles, uma das obras onde põe mais de si próprio, onde algumas das suas obsessões mais constantes, como os temas da culpabilidade e da falsidade, melhor encontram ressonância e explanação. Temas que são igualmente uma constante no universo peculiar do “filme negro”.
Um filme com imagens absorventes de criatividade, de vigor, de brilho, uma das mais fulgurantes aventuras do cinema que se queria moderno e inventivo. Apaixonado pela estética da distanciação de Bertolt Brecht, que considerava o teatro chinês aquele que melhor concretizava essa intenção, não será de estranhar que as derradeiras sequências desta obra decorram precisamente durante uma representação de teatro chinês - será aí que se descobrirá o verdadeiro culpado, culpado que será justiçado numa admirável sequência de espelhos múltiplos, onde a realidade se deforma, multiplica e estilhaça.  


A DAMA DE XANGAI
Título original: The Lady from Shanghai
Realização: Orson Welles  (EUA, 1948); Argumento: Orson Welles, William Castle, Charles Lederer  e Fletcher Markle (os três últimos não creditados), segundo romance de Sherwood King  (If I Die Before I Wake); Música Original: Heinz Roemheld  e ainda Doris Fisher e Allan Roberts  (canção "Please Don't Kiss Me") (não creditados); Fotografia (P/b): Charles Lawton Jr., Rudolph Maté   (não creditado), Joseph Walker (não creditado); Montagem: Viola Lawrence; Direcção artística: Sturges Carne, Stephen Goosson; Decoração: Wilbur Menefee, Herman N. Schoenbrun; Guarda Roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Clay Campbell, Helen Hunt, Robert J. Schiffer; Assistentes de realização: Sam Nelson; Realizador da Segunda unidade: William Castle; Som: Lodge Cunningham; Efeitos Especiais: Lawrence W. Butler; Produção: William Castle, Harry Cohn, Orson Welles, Richard Wilson; Intérpretes: Rita Hayworth (Elsa "Rosalie" Bannister), Orson Welles (Michael O'Hara), Everett Sloane (Arthur Bannister), Glenn Anders (George Grisby), Ted de Corsia (Sidney Broome), Erskine Sanford (Juiz), Gus Schilling (Goldie), Carl Frank (Procurador Público, Galloway), Louis Merrill (Jake), Evelyn Ellis (Bessie), Harry Shannon (Taxista), William Alland, Jessie Arnold, Jack Baxley, Steve Benton, Vernon Cansino, Doris Chan, George Chirello, Wong Show Chong, Edward Coke, Peter Cusanelli, Al Eben, Edythe Elliott, John Elliott, Keenan Elliott, Joseph Granby, Robert Gray, Alvin Hammer, Maynard Holmes, Tiny Jones, Byron Kane, Milton Kibbee, Preston Lee, Grace Lem, Billy Louie, Charles Meakin, Philip Morris, Sam Nelson, Mary Newton, Joseph Palmer, Edward Peil Sr., Gerald Pierce, Joe Recht, Mabel Smaney, Harry Strang, Norman Thomson, Philip Van Zandt, Dorothy Vaughan, Richard Wilson, Artarne Wong, Jean Wong, etc. Rodagem: nos Estúdios da Columbia e exteriores no México, San Francisco, a bordo de "Zacca", o iate de Errol Flynn; Duração: 87 minutos; Estreia: Abril de 1948 em Inglaterra e Maio de 1948 nos EUA;;  Distribuição Internacional: Columbia Pictures; Distribuição em Portugal: Radio Filmes (Portugal);Edição vídeo: Costa do Castelo.