Mostrar mensagens com a etiqueta John Huston. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta John Huston. Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de fevereiro de 2017

QUANDO A CIDADE DORME (1950)


QUANDO A CIDADE DORME (1950)

John Huston foi uma das mais fortes personalidades de Hollywood durante algumas épocas. Como realizador, argumentista e actor amealhou dezena e meia de nomeações para Oscars, ganhou por duas vezes no mesmo filme, “O Tesouro de Sierra Madre”, como argumentista e realizador. Era o que se pode chamar uma força da natureza, um homem com a fibra e o arrojo de um Hemingway ou um Welles, deixou uma marca inconfundível em quase cinco dezenas de títulos por si dirigidos e em mais de uma meia centena de outros onde aparece como actor. Algumas realizações suas perduram com uma mensagem simbólica inconfundível: a avidez e a ambição não são boas conselheiras ou, em palavras mais comezinhas, “quem tudo quer, tudo perde”. “O Tesouro de Sierra Madre” (1948) é, neste aspecto, paradigmático, mas “Quando a Cidade Dorme” (1950) não lhe fica atrás. A força destes filmes foi tamanha que arrastou seguidores. “Um Roubo no Hipódromo”, do então jovem Stanley Kubrick, parece ter-lhe seguido as peugadas.
“The Asphalt Jungle” conta a história de um assalto, um dos muitos “hold up” que o cinema foi narrando ao longo da sua existência, nalguns “heist movie” que ficaram para sempre na memória dos cinéfilos. Mas este terá sido dos primeiros, e dos mais conseguidos, funcionando, portanto, como protótipo. Um assalto laboriosamente pensado por Doc Erwin Riedenschneider (Sam Jaffe) enquanto esteve preso e que procura por em prática logo que se encontra em liberdade. Mas para levar a efeito este roubo de joias precisa de alguns cúmplices que o ajudem em tarefas de campo, como arrombar portas e fechaduras de cofres e organizar a fuga. Riedenschneider é o cérebro, limita-se a estudar e organizar mentalmente o “projecto”. Outros serão as suas hábeis mãos e rápidos pés.



Para isso conta, entre outros, com Dix Handley (Sterling Hayden). Mas necessita igualmente de capital, para o que se socorre de um (aparentemente) bem instalado Alonzo D. Emmerich (Louis Calhern) que mascara a sua falência por detrás de um aspecto de perfeito gentleman, e da sua dengosa amante, uma curvilínea Angela Phinlay (Marilyn Monroe ainda em inicio de carreira, mas já prometedora). Tudo parece correr segundo os planos, apesar dos esforços do corrupto Comissário Hardy (John McIntire) para aparentemente deslindar o golpe, até que tudo se desmorona. Com muito de parábola bíblica, para se comprovar que o “crime não compensa”.
O mais interessante neste filme, que valeria a John Huston duas novas nomeações de Oscars para Melhor Realizador e Melhor Argumentista, aqui de colaboração com Ben Maddow, adaptando ambos um romance de W.R. Burnett, são seguramente os retratos destes vigaristas sem sorte, ladrões de joias sem estrelinha, que acabam por deixam fugir por entre os dedos a fortuna que tinham conseguido arrecadar. Huston é muito dado a acompanhar o percurso de alguns falhados da vida, que ambicionam mais alto do que os seus recursos e acabam por pagar por isso. Foi assim em “O Tesouro de Sierra Madre”, com o pesquisador de ouro que perde toda a sua fortuna deixando os sacos carregados de pepitas de ouro, resvalar por uma colina abaixo, volta a ser assim neste “Quando a Cidade Dorme”, onde o talento do cineasta descreve com invulgar eficiência de meios e rigor os ambientes de um certo bas-fond do crime. Curiosa igualmente a interdependência de classes em que poderosos e criminosos e vagabundos se cruzam para (possível) proveito de todos, mostrando que, também nestes “negócios”, capital e trabalho unem esforços, mas mantendo distancias e hierarquias. A fotografia, a preto e branco, de Harold Rosson, é de muito boa qualidade, recriando climas, num claro escuro muito expressivo, e que se ajusta muito bem às características do “filme negro”. Também a música de Miklós Rózsa se integra magnificamente no tom do filme (não só se integra, como o ajuda a definir). Excelentes são ainda as interpretações de um elenco onde surgem igualmente vários rostos habituais neste género. 


QUANDO A CIDADE DORME
Título original: The Asphalt Jungle
Realização: John Huston (EUA, 1950); Argumento: Ben Maddow, John Huston, segundo romance de W.R. Burnett;Produção: Arthur Hornblow Jr, John Huston; Música: Miklós Rózsa; Fotografia (p/b): Harold Rosson; Montagem: George Boemler; Direcção artística: Randall Duell, Cedric Gibbons; Decoração: Edwin B. Willis; Guarda-roupa: Joan Joseff; Maquilhagem: Jack Dawn, Sydney Guilaroff, Lou LaCava, Elaine Ramsey; Direcção de Produção: Lee Katz; Assistentes de realização: Jack Greenwood, Frank E. Myers; Departamento de arte: Jack D. Moore, Frank Wesselhoff; Som: Douglas Shearer, Robert B. Lee; Companhias de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) (Loew's Incorporated) (A John Huston Production); Intérpretes: Sterling Hayden (Dix Handley), Louis Calhern (Alonzo D. Emmerich), Jean Hagen (Doll Conovan), James Whitmore (Gus Minissi), Sam Jaffe (Doc Erwin Riedenschneider), John McIntire (Comissário Hardy), Marc Lawrence (Cobby), Barry  (Tenente Ditrich), Anthony Caruso (Louis Ciavelli), Teresa Celli (Maria Ciavelli), Marilyn Monroe (Angela Phinlay), William 'Wee Willie' Davis (Timmons), Dorothy Tree (May Emmerich), Brad Dexter (Bob Brannom), John Maxwell (Dr. Swanson), Mary Anderson, Ray Bennett, David Bond, Chet Brandenburg, Benny Burt, Harry G. Butcher, Frank Cady, Jean Carter, Mack Chandler, David Clarke, John Cliff, Harry Cody, Gene Coogan, Henry Corden, Chuck Courtney, John Crawford, Ralph Dunn, Gene Evans, Pat Flaherty, Alex Gerry, Sol Gorss, Fred Graham, William Haade, Don Haggerty, Eloise Hardt, Thomas Browne Henry, Wesley Hopper, George Lynn, Ethel Lyons, Fred Marlow, Strother Martin, Patricia Miller, Howard M. Mitchell, Ralph Montgomery, Alberto Morin, Kerry O'Day, Raymond Roe, Henry Rowland, Tim Ryan, James Seay, Jack Shea, Charles Sherlock, J. Lewis Smith, J.J. Smith, Joseph Darr Smith, Helene Stanley, Jack Stoney, Ray Teal, Leah Wakefield, Harlan Warde, Jack Warden, William Washington, Constance Weiler, Judith Wood, Victor Wood, Wilson Wood, Jeff York, etc. Duração: 112 minutos; Distribuição em Portugal: Warner (Espanha); Inglês, com legendas em espanhol; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 22 de Março de 1951. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

RELÍQUIA MACABRA (1941)



RELÍQUIA MACABRA (1941)



“Relíquia Macabra” é primeira realização de John Huston, rodada em 1941, assinalando por isso a sua estreia como realizador, depois de um período de ambientação a Hollywood, como actor e, sobretudo, como argumentista. Um romance policial do sempre notável Dashiel Hammett, um dos mais negros escritores da literatura norte-americana, serve de base a esta obra-prima do cinema da década de 40, que muitos consideram a do apogeu do "filme negro" e do policial.
A adaptação do romance de Dashiel Hammett foi feita pelo próprio John Huston que havia ganho reputação neste campo nos anos anteriores, cingindo-se aqui muito fielmente ao espírito e à letra da obra literária, não deixando, porém, de introduzir um toque muito pessoal da sua filosofia da vida. Na verdade, esta denúncia da ambição desmedida e da cobiça acaba por se mostrar espúria, tal como mais tarde o verficara igualmente o protagonista de “O Tesouro de Sierra Madre”. Esta matéria “de que são feitos os sonhos” nem sempre compensa.
Sam Spade, interpretado por Humphrey Bogart, aqui no seu segundo grande papel, após “High Sierra”, e no primeiro em que não é um vilão assumido e se passa para o lado do combate ao crime, é um detective privado que, depois da morte de um sócio, Miles Archer, camarada de profissão, se vê envolvido na perseguição de uma estatueta, precisamente “The Maltese Falcon” que dá o nome à versão original. Uma estatueta que tem uma longa história para contar, pois, como se conta na legenda inicial, “Em 1539, os Templários de Malta pagaram tributo a Carlos V de Espanha eviando-lhe um falcão em ouro, com joias raras inscrustadas dos pés à cabeça. Mas os piratas avistaram a galera que transportava esta peça valiosa e o paradeiro do Falcão de Malta permaneceu um mistério até então”. A caça ao tesouro intensifica-se em São Francisco, quando uma bela mulher entra no escritório dos detectives “Spade and Archer” e os assassinatos começam a acontecer.
Mas, para lá do complexo e labiríntico entrecho, o que mais ressalta é o retrato admiravelmente justo da sociedade norte-americana da época,a agilidade e precisão do diálogo, e a perfeição do "casting", escolhendo actores que se identificam de tal forma com as personagens que hoje em dia se torna impensável vê-las sob outras aparências: Bogart, Mary Astor, Peter Lorre, Sydney Greenstreet, que o acaso reuniu nesta obra, e o calculismo dos produtores viria a juntar em muitas outras seguintes, constituem uma das mais brilhantes galerias de tipos que um só filme conseguiu reunir.
Curioso será relembrar que, inicialmente, quem estava para interpretar os papéis criados por Bogart e Astor eram George Raft e Ann Sheridan, vedetas nº. 1 da Warner Brothers.  Mas, o destino tece-as, e, por uma razão ou por outra, quem afinal surgiu foi quem nós hoje vemos neste filme mítico, uma obra de referência obrigatória, um marco na carreira cruzada de vários talentos.
A tudo isto, há que acrescentar, "last but not least", o talento narrativo, a subtileza de escrita e a ironia desencantada, um pouco cínica mesmo, de um John Huston em apuramento de estilo e de forma.  


RELÍQUIA MACABRA
Título original: The Maltese Falcon
Realização: John Huston (EUA, 1941); Argumento: John Huston, segundo romance de Dashiell Hammett; Produção: Henry Blanke, Hal B. Wallis; Música: Adolph Deutsch; Fotografia (p/b): Arthur Edeson; Montagem: Thomas Richards; Direcção artística: Robert M. Haas; Guarda-roupa: Orry-Kelly; Maquilhagem: Perc Westmore, Frank McCoy, Jean Udko; Direcção de produção: Al Alleborn; Assistentes de realização: Claude Archer, John Prettyman, Jack Sullivan; Departamento de arte: John Gilbert Kissel, William McConnell; Som: Oliver S. Garretson; Companhias de produção: Warner Bros.-First National Picture; Intérpretes: Humphrey Bogart (Samuel Spade), Mary Astor (Brigid O'Shaughnessy), Gladys George (Iva Archer), Peter Lorre (Joel Cairo), Barton MacLane (Detective Dundy), Lee Patrick (Effie Perine), Sydney Greenstreet (Kasper Gutman), Ward Bond (Detective Tom Polhaus), Jerome Cowan (Miles Archer), Elisha Cook Jr., James Burke, Murray Alper, John Hamilton, Charles Drake, Chester Gan, Creighton Hale, Robert Homans, William Hopper, Walter Huston, Hank Mann, Jack Mower, Emory Parnell, etc. Duração: 100 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros. (DVD); Classificação etária: M/12 anos; Estreia em Portugal: 8 de Agosto de 1945.