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domingo, 19 de fevereiro de 2017

À BEIRA DO ABISMO (1946)


À BEIRA DO ABISMO (1946)

"The Big Sleep" parte de um romance de Raymond Chandler e tem o argumento assinado por William Faulkner, além de Jules Furthman e Leigh Brackett. O realizador é Howard Hawks, que o dirigiu em 1946, dois anos depois de ter reunido pela primeira vez Humphrey Bogart e Lauren Bacall em “Ter ou não Ter”. Reunião explosiva que haveria de levar os dois actores a um casamento que duraria até à morte de Bogey, em 1957. Raymond Chandler, juntamente com Dashiell Hammett, são os maiores escritores de policiais deste período. Criando, entre outras personagens, dois detectives privados inesquecíveis, que Bogart interpretou de forma magistral: Philip Marlowe e Sam Spade. Ambos podem ser considerados os principais cultores do romance negro norte-americano, abastecendo abundantemente o cinema com obras que se tornariam clássicos deste género. No caso de Dashiell Hammett, “Relíquia Macabra” ou “The Thin Man” são dois bons exemplos. Quanto a Philip Marlowe, “À Beira do Abismo” e “A Dama do Lago” bastam para assegurar uma posição notória.
Howard Hawks não foi um realizador para se manter fiel a um género, preferindo vogar livremente ao sabor da inspiração e das encomendas de ocasião. Tinha o condão de transformar em obras de autor todos (ou quase todos) os filmes que dirigia. Comédias, policiais, westerns, ficção científica, dramas, filmes históricos contam-se na sua filmografia. “Ter ou não Ter” e “À Beira do Abismo” bastaram para lhe criar um lugar essencial na história do filme negro, ainda que não respeitasse integralmente as regras do género, coisa que aliás nunca respeitou em nenhum outro. Uma das suas características será mesmo essa indisponibilidade para respeitar regras. Raros são os seus filmes onde as relações humanas são convencionais. Casais bem casados quase não existem. Mas relações de amizade e camaradagem podem ver-se amiúde, ainda que sempre observadas por um prisma de certa originalidade. Mas violência, traições, hipocrisia, cinismo, um olhar distanciado sobre a realidade, dado através de uma ironia fina e uma crítica mordaz são constantes. As suas personagens gostam de acção, movimento, diálogos curtos, poucas explicações, entrechos complexos, por vezes confusos, dando a impressão de que o cineasta prefere aprofundar mais as figuras que as situações.


“À Beira do Abismo” é um excelente exemplo desta prática. A intriga é particularmente intrincada e, mesmo depois de duas ou três visões, o espectador ficará com dúvidas sobre o que aconteceu. Numa entrevista dada alguns anos depois da conclusão de “The Big Sleep”, Howard Hawks confessava que ainda não sabia quem teria assassinado um dos sete indivíduos transformados em cadáveres que aparecem ao longo da obra. Julgamos que se referia a um motorista que é dado como morto e de quem pouco mais se sabe. Não interessa, também. O que importa neste filme, que quase ninguém hesita em classificar como uma obra-prima, são realmente as personagens, entre elas a estranha relação que se estabelece entre Philip Marlowe (Humphrey Bogart) e Vivian Rutledge (Lauren Bacall), os diálogos, tensos, nervosos, irónicos, cínicos, o clima denso, pesado, soturno que rodeia esta história viciosa e violenta, bem como a arte da narração e a fotografia enevoada e cinzenta. De resto, a ambiguidade é a certeza com que nos defrontamos ao longo da projecção. Nunca se sabe bem quem é quem, o que o move, qual o passo seguinte. 
Philip Marlowe, detective privado, ex-polícia aposentado por não se dar bem com as regras do sistema, é convocado pelo velho general Sternwood (Charles Waldron) para o visitar na sua mansão em Los Angeles. Sternwood recebe-o numa estufa, com um calor sufocante, por entre orquídeas e cobertores que o envolvem na sua cadeira de rodas. Sternwood está doente, oferece uma bebida ao visitante, e bebe-a ele próprio com os olhos. Ele vive através dos outros. O encontro é para contratar Marlowe para este tentar resolver um caso de chantagem que tem como alvo a filha mais jovem do general, Carmen Sternwood (Martha Vickers), uma (pouco mais que adolescente) ninfomaníaca destrambelhada, perdida no jogo e na droga. Quando se apresta a deixar a mansão, Marlowe é interpelado pela outra filha de Sternwood, Vivian, que quer saber o que o pai tem em mente. Depois há um pouco de tudo, bibliotecas e livrarias que o são, e outras que o são apenas na aparência, casinos e jogo, ciladas e traições, casas isoladas onde acontecem estranhas sessões fotográficas e ocorrem assassinatos, com o defunto a aparecer e desaparecer, cenas de sedução e outras de violência verbal, Marlowe preso, Marlowe solto, Marlowe à frente dos acontecimentos, Marlowe perseguindo os acontecimentos e, sobretudo, Marlowe e Vivian a começar por se insultarem insolentemente e acabarem nos braços um do, outro (para o que os argumentistas e Howard Haws tiveram de alterar substancialmente o desfecho do romance de Raymond Chandler).


De resto, o filme tem situações magníficas de humor e invenção. Arthur Geiger, um dos suspeitos, possui uma livraria que Marlowe vista. É recebido por Agnes Louzier (Sonia Darrin), a quem pergunta por uma terceira edição de "Ben Hur", de 1860, com a errata na página 116, o que a empregada de Geiger desconhece, pois a livraria não é mais do que máscara para negócios ilícitos. E vão surgindo o desaparecido Sean Regan, o violento Joe Brody, o bem-apessoado Eddie Mars, que dirige o casino, e alguns cadáveres a entremearem as situações.
Howard Hawks serve-se de um estilo nervoso, sincopado, elíptico, numa narrativa enxuta, planos fixos, raros movimentos de câmara, apenas os necessários para acompanhar personagens, que todavia conferem uma ambiência sólida e inquietante, misteriosa e exaltante.
Curiosamente, Lauren Bacall não assina o retrato de uma mulher fatal habitual, mas de alguém de uma sensualidade furtiva, que se adivinha mais do que mostra (todo o contrário da oferecida irmã, que se atira literalmente para o colo de quem está mais próximo). Esta personagem, perante o distante e cínico Marlowe acaba por vivenciar momentos de alta voltagem erótica, o que não será de estranhar dado que o casal Bacall-Bogart vivia na vida real uma lua-de-mel de contagiante felicidade
Nota final: em 1978 surgiu uma nova versão de "The Big Sleep" (O Sono Derradeiro, em português), dirigida por Michael Winner, com Robert Mitchum, Sarah Miles, Richard Boone, entre outros. Uma desilusão.


À BEIRA DO ABISMO
Título original: The Big Sleep

Realização: Howard Hawks (EUA, 1946); Argumento: William Faulkner, Leigh Brackett, Jules Furthman, segundo romance de Raymond Chandler ("The Big Sleep"); Produção: Jack L. Warner, Howard Hawks; Música: Max Steiner; Fotografia (p/b): Sidney Hickox; Montagem: Christian Nyby; Direcção artística: Carl Jules Weyl,Max Parker; Decoração: Fred M. MacLean; Maquilhagem: Perc Westmore; Direcção de Produção: Eric Stacey; Assistentes de realização: Chuck Hansen, Robert Vreeland; Som: Robert B. Lee;  Efeitos especiais: Roy Davidson, Warren Lynch; Efeitos visuais: Paul Detlefsen; Companhia de produção: Warner Bros.-First National Pictures Inc.; Intérpretes: Humphrey Bogart (Philip Marlowe), Lauren Bacall (Vivian Rutledge), John Ridgely (Eddie Mars), Martha Vickers (Carmen Sternwood), Dorothy Malone (empregada de livraria), Peggy Knudsen (Mona Mars), Regis Toomey ( Inspector Bernie Ohls), Charles Waldron (Gen. Sternwood), Charles D. Brown (Norris), Bob Steele (Lash Canino), Elisha Cook Jr. (Harry Jones), Louis Jean Heydt (Joe Brody), Trevor Bardette, Joy Barlow, Max Barwyn, Deannie Best, Tanis Chandler, Jack Chefe, Joseph Crehan, Oliver Cross, Sonia Darrin, Carole Douglas, Jay Eaton, etc. Duração: 114 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros.; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal:14 de Janeiro de 1948.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

RELÍQUIA MACABRA (1941)



RELÍQUIA MACABRA (1941)



“Relíquia Macabra” é primeira realização de John Huston, rodada em 1941, assinalando por isso a sua estreia como realizador, depois de um período de ambientação a Hollywood, como actor e, sobretudo, como argumentista. Um romance policial do sempre notável Dashiel Hammett, um dos mais negros escritores da literatura norte-americana, serve de base a esta obra-prima do cinema da década de 40, que muitos consideram a do apogeu do "filme negro" e do policial.
A adaptação do romance de Dashiel Hammett foi feita pelo próprio John Huston que havia ganho reputação neste campo nos anos anteriores, cingindo-se aqui muito fielmente ao espírito e à letra da obra literária, não deixando, porém, de introduzir um toque muito pessoal da sua filosofia da vida. Na verdade, esta denúncia da ambição desmedida e da cobiça acaba por se mostrar espúria, tal como mais tarde o verficara igualmente o protagonista de “O Tesouro de Sierra Madre”. Esta matéria “de que são feitos os sonhos” nem sempre compensa.
Sam Spade, interpretado por Humphrey Bogart, aqui no seu segundo grande papel, após “High Sierra”, e no primeiro em que não é um vilão assumido e se passa para o lado do combate ao crime, é um detective privado que, depois da morte de um sócio, Miles Archer, camarada de profissão, se vê envolvido na perseguição de uma estatueta, precisamente “The Maltese Falcon” que dá o nome à versão original. Uma estatueta que tem uma longa história para contar, pois, como se conta na legenda inicial, “Em 1539, os Templários de Malta pagaram tributo a Carlos V de Espanha eviando-lhe um falcão em ouro, com joias raras inscrustadas dos pés à cabeça. Mas os piratas avistaram a galera que transportava esta peça valiosa e o paradeiro do Falcão de Malta permaneceu um mistério até então”. A caça ao tesouro intensifica-se em São Francisco, quando uma bela mulher entra no escritório dos detectives “Spade and Archer” e os assassinatos começam a acontecer.
Mas, para lá do complexo e labiríntico entrecho, o que mais ressalta é o retrato admiravelmente justo da sociedade norte-americana da época,a agilidade e precisão do diálogo, e a perfeição do "casting", escolhendo actores que se identificam de tal forma com as personagens que hoje em dia se torna impensável vê-las sob outras aparências: Bogart, Mary Astor, Peter Lorre, Sydney Greenstreet, que o acaso reuniu nesta obra, e o calculismo dos produtores viria a juntar em muitas outras seguintes, constituem uma das mais brilhantes galerias de tipos que um só filme conseguiu reunir.
Curioso será relembrar que, inicialmente, quem estava para interpretar os papéis criados por Bogart e Astor eram George Raft e Ann Sheridan, vedetas nº. 1 da Warner Brothers.  Mas, o destino tece-as, e, por uma razão ou por outra, quem afinal surgiu foi quem nós hoje vemos neste filme mítico, uma obra de referência obrigatória, um marco na carreira cruzada de vários talentos.
A tudo isto, há que acrescentar, "last but not least", o talento narrativo, a subtileza de escrita e a ironia desencantada, um pouco cínica mesmo, de um John Huston em apuramento de estilo e de forma.  


RELÍQUIA MACABRA
Título original: The Maltese Falcon
Realização: John Huston (EUA, 1941); Argumento: John Huston, segundo romance de Dashiell Hammett; Produção: Henry Blanke, Hal B. Wallis; Música: Adolph Deutsch; Fotografia (p/b): Arthur Edeson; Montagem: Thomas Richards; Direcção artística: Robert M. Haas; Guarda-roupa: Orry-Kelly; Maquilhagem: Perc Westmore, Frank McCoy, Jean Udko; Direcção de produção: Al Alleborn; Assistentes de realização: Claude Archer, John Prettyman, Jack Sullivan; Departamento de arte: John Gilbert Kissel, William McConnell; Som: Oliver S. Garretson; Companhias de produção: Warner Bros.-First National Picture; Intérpretes: Humphrey Bogart (Samuel Spade), Mary Astor (Brigid O'Shaughnessy), Gladys George (Iva Archer), Peter Lorre (Joel Cairo), Barton MacLane (Detective Dundy), Lee Patrick (Effie Perine), Sydney Greenstreet (Kasper Gutman), Ward Bond (Detective Tom Polhaus), Jerome Cowan (Miles Archer), Elisha Cook Jr., James Burke, Murray Alper, John Hamilton, Charles Drake, Chester Gan, Creighton Hale, Robert Homans, William Hopper, Walter Huston, Hank Mann, Jack Mower, Emory Parnell, etc. Duração: 100 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros. (DVD); Classificação etária: M/12 anos; Estreia em Portugal: 8 de Agosto de 1945.